Tratamento com células-tronco

DII

Muitos de vocês leram a notícia da Giselle, a primeira a fazer o tratamento da doença de Crohn com células-tronco. Ela entrou em contato com o Dr. Milton Artur Ruiz para escrever um artigo para o Crohn & Colite explicando melhor o procedimento. O artigo segue abaixo e gostaríamos de agradecer tanto ao Dr Milton quanto a Giselle por esclarecerem tal procedimento aos portadores da doença inflamatória intestinal.

O Transplante de Células-tronco na Doença de Crohn

Escrito por: Dr Milton Artur Ruiz

Milton Artur Ruiz

Dr Milton Artur Ruiz

A Doença de Crohn (DC) é uma doença que compromete mais comumente a região do íleo terminal, mas tem um potencial de acometer qualquer parte do aparelho digestivo. Os sintomas são variados, mas dor abdominal, diarreias que podem ser com sangue são frequentes e dominam o quadro clínico da maioria dos pacientes. Os pacientes alternam períodos de acalmia e de recrudescimento dos seus sintomas, mas em diversas situações o comprometimento das lesões é de tal monta que o intestino obstrui seguido de uma estenose, o que pode obrigar a remoções cirúrgicas que podem ser extensas e que se repetem em diversos segmentos do intestino. A DC é uma doença inflamatória das mais graves e se crê tratar-se de uma doença autoimune na qual o organismo, sem que se saiba por que, escolhe a própria mucosa intestinal para atacar por não considerá-la própria e sim uma estranha. Outros sintomas podem se agregar como febre, dores nas juntas, problemas cutâneos e ás vezes outras doenças autoimunes podem aparecer concomitante, ou precederem doenças neoplásicas.

Os dados acima expostos com certeza já são do amplo conhecimento de pacientes,  familiares e médicos gastroenterologistas afeitos ao tratamento das doenças inflamatórias intestinais, mas não de hematologistas que atuam na área do Transplante de Células-tronco Hematopoéticas (TCTH).

O TCTH é a denominação atual do Transplante de Medula Óssea (TMO), tratamento consagrado com o premio Nobel conferido ao americano E. Donnall Thomas em 1990, para tratar de doenças do sangue adquiridas, como Anemia aplástica e Leucemias. Como as células provinham da medula óssea de doadores compatíveis geralmente de irmãos o nome se prestava e ainda hoje TMO é a forma mais utilizada para definir o tratamento. Com o avanço dos conhecimentos logo em seguida descreveu-se que as mesmas células progenitoras (jovens) e que ajudam a reconstituir a produção de sangue da medula óssea afetada por uma doença, circulam também no sangue periférico, ou seja, nas veias e artérias. Logo também se descobriu que as mesmas podiam ser manipuladas, aumentadas em número e assim utilizadas para o mesmo tratamento que se realizava colhendo células da medula óssea em centro cirúrgico. Ou seja, as células podiam ser obtidas tanto da medula óssea (tutano do osso) como do sangue periférico, sem o transtorno de anestesia em máquinas separadoras de células chamada de aféresis. Hoje além das células da medula, do sangue periférico as células do sangue de cordão umbilical também se prestam para tratamento.

No final da década de 80 o transplante com células de sangue periférico começou a ser realizado em pacientes com tumores sólidos, os linfomas em especial, passaram a retirar previamente as suas células, criopreservando-as (colhidas e congeladas a baixas temperaturas: inferior á -80º C) para serem reutilizadas de forma autóloga para se realizar um tratamento mais agressivo que o usual com quimioterápicos para eliminarem a sua doença.

 Este é procedimento autólogo o mais realizado atualmente em todo o mundo, que evoluiu sendo um procedimento controlado, mais seguro e apesar dos riscos inerentes de qualquer tratamento hoje a taxa de mortalidade dos pacientes que se submetem ao procedimento se aproxima do zero.

O transplante então além de reconstituir a produção do sangue na medula óssea modifica os mecanismos de defesa do paciente e dependendo do paciente pode levar de seis meses a dois anos para se reorganizar e passar funcionar de forma adequada. Isto logo se percebeu quando para tratamento de doenças neoplásicas e que tinham coincidentemente também doenças autoimunes o transplante se prestava na verdade para tratar as duas doenças. Assim se iniciou o tratamento das doenças autoimunes em casos selecionados graves, como o Lupus, Esclerose múltipla, Esclerose sistêmica, Esclerodermia e outras mais com o Transplante autólogo.

Hoje o procedimento é consagrado e utilizam-se células de várias fontes e inúmeras doenças autoimunes são consideradas alvo de tratamento e de pesquisa com o transplante de células.

Considero como responsáveis pela evolução deste tipo de tratamento Richard Burt nos Estados Unidos, na Europa AM Marmont, e no Brasil Júlio Voltarelli.

O primeiro caso descrito de tratamento da DC com o transplante foi em um caso nos Estados Unidos em 1994 que também tinha linfoma em que as duas doenças desapareceram após o tratamento.

Este evento fez com que fossem procurados outros casos de transplante e logo o número de casos de DC assim tratados se avolumou e os primeiros casos de DC na virada do século começaram a ser tratados com transplante autólogo nos Estados Unidos e na Europa.

A DC é tratada com medicamentos que suprimem a imunidade e que controlam a doença, porém um grande percentual de pacientes, não respondem a estes medicamentos que se tornam refratários e apresentam complicações que os obrigam novas cirurgias.

Recentemente fui colocado a frente de um caso destes e pelos dados de literatura a indicação de um TCTH, independente do tipo, era clara para mim. Esgotados os tratamentos anteriores passei a me ilustrar sobre a doença e os resultados, ficando surpreso com a falta de informações sobre o transplante como forma de tratamento para a DC. Até então em mais de 18 anos atuando no transplante eu nunca havia recebido sequer um caso ou consulta para realizar o procedimento.  Nos congressos nada tem sido comentado, assim como o tratamento de doenças autoimunes em geral ainda não é previsto no Brasil pelo SUS.  Mesmo no exterior os relatos de estudos e de transplantes não são muitos e ao realizar um transplante autólogo me vi surpreendido por ter realizado o primeiro procedimento no Brasil, fato sabido dois meses após tratamento do paciente pela equipe de TMO e Terapia celular da Associação Portuguesa de Beneficência e da Kaiser Clínica de SJ de Rio Preto, SP. A prioridade era o paciente.

Mas as surpresas continuam e as respostas do porque o procedimento não é comentado ainda não é encontrado apesar dos pesquisadores relatarem que isto ocorre porque a doença pode voltar em um, três ou cinco anos, existindo no entanto, casos com mais de 14 anos em completa remissão sem sintomas, ou que vieram a falecer de outras doenças que não a DC. Nas discussões inclusive ainda restritas ao meu ciclo de amigos da área, retruco que a ausência de sintomas e de remissão por um, três ou cinco anos vale a pena pela gravidade dos casos que passei a atender em decorrência do primeiro transplante e por dados publicados de pacientes que passam a responder melhor se a doença voltar a diversos medicamentos que anteriormente não funcionavam mais.

As indicações do transplante infelizmente ainda não estão devidamente estabelecidas, mas existe um consenso de que quando o caso é grave, refratário aos tratamentos convencionais, com cirurgias de ressecções ou iminência de novas cirurgias o TCTH deve ser cogitado, e ser uma opção de tratamento.

Infelizmente o progresso é lento, os pacientes sofrem e não podem esperar estudos acadêmicos, que às vezes é só acadêmico, para serem tratados por um procedimento devidamente estabelecido e consagrado.

Informações adicionais: Células-troncoBene Rio Preto; ou diretamente na Plataforma Lattes, Google acadêmico em busca sob meu nome.

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Comentários
  • comment avatar Cristal 29/07/2014

    O receio desse tratamento se dá por conta da falta de estatísticas de um período razoável do resultado deste tratamento, mas acredito que esse tratamento seja eficaz e portanto tem a sua relevância e DEVE ser comentado no meio científico. Parabenizo a todos que trabalham em prol da cura desta doença, e estimo que brevemente teremos políticas públicas envolvidas em prol deste segmento. O triste é ver que para se submeter ao tratamento necessita-se da análise médica também em relação ao número de cirurgias que o paciente deve passar para saber se é interessante ou não este método, deveríamos proteger o paciente de tantas tentativas pela cirurgia convencional, já que temos dados relevantes que a doença volta com mais potência… Por essência essa não é a minha luta, mas é pelo amor que tenho ao meu marido que tem essa doença!

  • comment avatar Fabiana Câmara 31/07/2014

    primeiramente gostaria de parabenizar o Dr Milton Artur Ruiz, pela iniciativa. Sou portadora da doença de crohn e sei o quanto sofremos em busca da tão sonhada remissão! Fico indignada com a forma que somos ignorados tanto pela ciência quanto por médicos, encontrei muita dificuldade em consultórios e hospitais. Hoje me espanto mais ainda, quando comento com médicos sobre o transplante realizado e muitos não sabem do que estou falando, ou seja, não fazem ideia que há e que aconteceu esse tipo de transplante no Brasil para portadores de DC. Precisamos de ajuda, isso é desesperador! Um país tão mal informado, fico pensando quando poderemos contar com esse tipo de tratamento no Brasil, daqui 30 anos? Será tarde senhores, para nós que levamos a vida hoje tentando sobreviver!
    também acho um absurdo ter que ser submetido a várias cirurgias para que, assim ter indicador de padrão ao transplante. Pensemos meus senhores, precisamos passar por tanto para obter qualidade de vida? Algum psiquiatra espera o paciente tentar suicídio para depois tratá-lo?

  • comment avatar Bianca Priamo 31/07/2014

    Sou paciente com DC desde 2009 e NUNCA entrei em remissão, pois não respondo ao tratamento (desde o convencional até o biológico, mesmo otimizado). Acho fenomenal essa possibilidade e gostaria de saber mais detalhes sobre as indicações. Alguém com o contato do consultório do Dr. Milton Artur Ruiz???

    • comment avatar Cristal 04/08/2014

      Olá Bianca Priamo,eu consegui marcar consulta para o meu marido com o Dr. Kaiser que participou deste procedimento, ele fia em Ribeirão Preto-SP, no site tem o telefone da clínica. Fique com Deus, bjus. http://www.kaiserclinica.med.br/

  • comment avatar Bianca Priamo 25/08/2014

    Obrigada Cristal! Vou ligar lá. Bjus

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