A dieta do carboidrato específico dá certo para quem tem doença de Crohn?

Alguns manejos na doença de Crohn e outras doenças inflamatórias intestinais podem ser frustrantes tanto para pacientes quanto para profissionais da saúde. Já sabemos que nenhum alimento é causa dessas doenças, mas também sabemos que a dieta pode desempenhar um papel fundamental no tratamento dos sintomas e até mesmo prolongar o tempo de remissão. Muitos pacientes, por exemplo, acreditam que a dieta com pouca fibra (ou dieta com pouco resíduo) ajuda a aliviar os sintomas de cólicas e diarreia pelo fato de reduzir o volume das fezes (leia mais sobre essa dieta aqui.

Os especialistas aconselham que pacientes com doença inflamatória intestinal devem, com a ajuda de um nutricionista, tentar comer o mais normal possível, desde que seja uma alimentação equilibrada, na medida que eles toleram e identificando e excluindo alimentos que causam intolerâncias. Como proceder então com dietas “especiais”, tais como a dieta do carboidrato específico, apontada em alguns meios como a melhor para tratar a doença inflamatória intestinal?

Os carboidratos são os vilões?

A “dieta do carboidrato específico” foi desenvolvida pelo médico Sidney V. Haas e apresentada ao público em 1990 pela autora do livro “Como romper o ciclo vicioso do seu intestino: saúde intestinal através da dieta”, Elaine Gotschall. O interesse dela na promoção da dieta surgiu a partir de suas experiências, ajudando a sua própria filha a lidar com a inflamação no cólon desde criança. Bioquímica, Gotschall estudou como o processo inflamatório afeta a mucosa de revestimento do intestino. Seguindo o conselho dos médicos que tratavam sua filha, Gotschall colocou-a para fazer uma alimentação rigorosa nos carboidratos e livre de glúten.

Quando os sintomas da filha desapareceram completamente, permitindo a ela voltar a comer normalmente, Gotschall postou que essa dieta altamente restritiva é uma resposta ao tratamento das doenças inflamatórias intestinais. De acordo com ela, os carboidratos não digeridos promovem a atividade de certos microorganismos (bactérias) que vivem na mucosa do intestino, estimulando a liberação de toxinas e ácidos que danificam o tecido de revestimento do trato digestório. Este, por sua vez, danifica enzimas que normalmente ajudam a quebrar os carboidratos, perpetuando assim um “círculo vicioso” que impede a digestão e a absorção de nutrientes por causa desses carboidratos.

A dieta do carboidrato específico ainda é mais exigente do que a dieta sem glúten “padrão”. Pessoas com doença celíaca ou intolerância ao glúten devem evitar a todo custo produtos (alimentares ou não) com glúten e, com isso, conseguem retomar a saúde e ter uma vida normal. A dieta do carboidrato específico vai mais longe: além de eliminar todo o glúten, ela elimina também grãos como milho, aveia, arroz, soja etc. Ela também elimina a lactose, a sacarose (o açúcar de mesa) e alimentos ricos em amido como massas, pão e batata.

O objetivo é eliminar praticamente todos os carboidratos. Os críticos apontam que é uma dieta extremamente restritiva, além de ser cara e, diante de tudo isso, difícil de seguir. Mas, o mais importante, é que há pouquíssima evidência científica bem documentada que apoiam a eficácia desta dieta.

Dieta do carboidrato específicoHá algumas inconsistências que preocupam os especialistas. Por exemplo, dieta permite o consumo de frutas (que contêm carboidratos como a frutose – o açúcar das frutas). Algumas pessoas com doença inflamatória intestinal têm má absorção de frutose. Como resultado, eles são mais propensos a ter cólicas intestinais e diarreia – o que a dieta propõe evitar. Além disso, a dieta do carboidrato específico proíbe vários legumes, mas permite outros. Os críticos argumentam que isso não tem lógica, pois alguns alimentos permitidos, como o feijão branco, contêm carboidratos que até mesmo muitas pessoas saudáveis têm dificuldade de ingerir.

Por outro lado, há um interesse crescente no possível papel da microflora intestinal como possível causa em promover a inflamação associada à doença inflamatória intestinal. Algumas pesquisas recentes sugerem que o corpo reage exageradamente à presença de certos micróbios. Sendo assim, reduzindo o número desses micróbios através de uma dieta restritiva, pode ser que os sintomas da inflamação sejam reduzidos.

Dieta do carboidrato específico x dieta de baixo resíduo: qual a melhor?

Infelizmente não há estudos clínicos amplos e bem controlados para investigar os benefícios da dieta do carboidrato específico contra a dieta de baixo resíduo (dieta pobre em fibras). Existe pouca evidência credível  na literatura médica para apoiar a eficácia da dieta do carboidrato específico no tratamento da doença de Crohn.

Alguns médicos especialistas em doença inflamatória intestinal já ouviram relatos de sucesso de pacientes que seguiram a dieta do carboidrato específico. Mas eles também perceberam que os pacientes têm uma dificuldade muito grande de seguir a dieta devido à sua natureza altamente restritiva e que isso pode aumentar a perda de peso em alguns pacientes, o que é uma preocupação muito grande.

Alguns especialistas acreditam que vale a pena tentar a dieta, mas que deve ser feito com acompanhamento de nutricionista para garantir que o paciente esteja recebendo todo o suporte nutricional adequado. As vitaminas e minerais podem até vir por meio de medicamentos, mas as calorias são só através dos alimentos. Outra coisa que os especialistas pedem muito cuidado é quanto aos remédios: muitas pessoas deixam de tomar o remédio quando começam a fazer essa dieta e isso é errado. Qualquer alteração significativa no tratamento deve ser comunicada ao seu médico.

Texto publicado originalmente em http://www.healthline.com/health/crohns-disease/specific-carbohydrate-diet#2.

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